terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Extrato de nós

Quem somos nós e para onde iremos é sempre uma máxima que faz com que eu me aproxime da contemporaneidade e do total reconhecimento por um trilhar margeado por terreno lodoso. É sempre um território de fronteira que me faz desterritorializar por onde passo, por onde vivi e vivo. 

Relação de pertencimento e identidade são palavras difíceis de compreender, pois as relações se fizeram através das pessoas que conheci, e não com o espaço físico em que eu me encontrava. As relações eram outras. Meu nomadismo e minha solidão acompanhada me fizeram alguém que não se constituísse enquanto ser com identidade, mas sempre em processo. Tive algumas experiências substanciais para compreender como o espaço físico interfere na vida das gentes: Dani Lima (RJ) e Dudude Herrmann (MG) me abriram os olhos para o espaço na dança, dançar o espaço que se apresenta. Suas retas, sua simetria. O Butô também me mostrou isso além de incorporar a ancestralidade, isto é, as pessoas também são importantes, as memórias das pessoas que nos fizeram ser o que somos. 

Em São Paulo, em contato com Luís Louis, em uma atividade de formação, era necessário que a gente buscasse na lembrança, uma memória que quiséssemos compartilhar com os outros, na perspectiva do teatro físico, utilizando-se da mímica corporal dramática e a clássica também. Enfim, que mostrássemos uma memória. Engraçado como foi difícil para eu encontrar uma. No primeiro momento minha dúvida era saber se seria oportuno compartilhar uma memória triste ou feliz. O pior foi constatar a inexistência de memórias para compartilhar. Eu não tinha memória!!! Absolutamente nada que pudesse compartilhar; alguma coisa significativa que fizesse emocionar a mim e/ou aos outros, algo importante a ponto de... lembrar... E me lembrei (risos) que lembranças boas ou ruins escamoteiam uma certa desolação do viver cotidiano, do hoje. Isso tudo repercutiu na minha vida a ponto de... não ter memórias para mostrar. Puxei e repensei, até encontrar alguma coisa, bem lá da infância, quando criança que vive e pronto, sem se preocupar com as coisas de gente grande. A apresentação se fez, mas não se fez. Mostrei-me, mas não me mostrei. 

Essa dubiedade duvidosa recupera a não-relação de pertencimento que tinha/tenho com as cidades que morei/moro. E naquele momento, em São Paulo, vendo as memórias revistas pelos outros, tudo acabou sendo minhas memórias, porque hoje me lembro delas, lembro das pessoas que me contaram e como contaram. Agora, essas memórias fazem parte de mim. Os espaços que morei se transformaram em saudades de algo que não se fixou, algo que não se efetivou; só a lembrança de não ter estado, efetivamente, presente. 

Então, resta-me construir uma memória outra a partir das memórias dos outros, e buscar nas apresentações, uma ressignificação do espaço, criar afinidade e pertencimento com eles, com os que ficaram. Em São Luís, onde resido atualmente, construirei essa relação de pertencimento nas apresentações que farei, 1 vez por semana, durante 12 meses. A forma de executar tal proposta não poderia ser de outra maneira que não o teatro físico, em que a ficção se confunde com o real, e a personagem dá lugar à persona; eu, os outros e os espaços que nos cercam.

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