Quem somos nós e para onde iremos é sempre uma
máxima que faz com que eu me aproxime da contemporaneidade e do total
reconhecimento por um trilhar margeado por terreno lodoso. É sempre um
território de fronteira que me faz desterritorializar por onde passo, por onde
vivi e vivo.
Relação de pertencimento e identidade são palavras difíceis de
compreender, pois as relações se fizeram através das pessoas que conheci, e não
com o espaço físico em que eu me encontrava. As relações eram outras. Meu
nomadismo e minha solidão acompanhada me fizeram alguém que não se constituísse
enquanto ser com identidade, mas sempre em processo. Tive algumas experiências
substanciais para compreender como o espaço físico interfere na vida das
gentes: Dani Lima (RJ) e Dudude Herrmann (MG) me abriram os olhos para o espaço
na dança, dançar o espaço que se apresenta. Suas retas, sua simetria. O Butô
também me mostrou isso além de incorporar a ancestralidade, isto é, as pessoas
também são importantes, as memórias das pessoas que nos fizeram ser o que
somos.
Em São Paulo, em contato com Luís Louis, em uma atividade de formação,
era necessário que a gente buscasse na lembrança, uma memória que quiséssemos
compartilhar com os outros, na perspectiva do teatro físico, utilizando-se da
mímica corporal dramática e a clássica também. Enfim, que mostrássemos uma
memória. Engraçado como foi difícil para eu encontrar uma. No primeiro momento
minha dúvida era saber se seria oportuno compartilhar uma memória triste ou
feliz. O pior foi constatar a inexistência de memórias para compartilhar. Eu
não tinha memória!!! Absolutamente nada que pudesse compartilhar; alguma coisa
significativa que fizesse emocionar a mim e/ou aos outros, algo importante a
ponto de... lembrar... E me lembrei (risos) que lembranças boas ou ruins
escamoteiam uma certa desolação do viver cotidiano, do hoje. Isso tudo
repercutiu na minha vida a ponto de... não ter memórias para mostrar. Puxei e
repensei, até encontrar alguma coisa, bem lá da infância, quando criança que
vive e pronto, sem se preocupar com as coisas de gente grande. A apresentação
se fez, mas não se fez. Mostrei-me, mas não me mostrei.
Essa dubiedade duvidosa
recupera a não-relação de pertencimento que tinha/tenho com as cidades que
morei/moro. E naquele momento, em São Paulo, vendo as memórias revistas pelos
outros, tudo acabou sendo minhas memórias, porque hoje me lembro delas, lembro
das pessoas que me contaram e como contaram. Agora, essas memórias fazem parte
de mim. Os espaços que morei se transformaram em saudades de algo que não se
fixou, algo que não se efetivou; só a lembrança de não ter estado,
efetivamente, presente.
Então, resta-me construir uma memória outra a partir
das memórias dos outros, e buscar nas apresentações, uma ressignificação do
espaço, criar afinidade e pertencimento com eles, com os que ficaram. Em São
Luís, onde resido atualmente, construirei essa relação de pertencimento nas
apresentações que farei, 1 vez por semana, durante 12 meses. A forma de
executar tal proposta não poderia ser de outra maneira que não o teatro físico,
em que a ficção se confunde com o real, e a personagem dá lugar à persona; eu,
os outros e os espaços que nos cercam.
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